Essa é uma reflexão que começou em mim quando percebi o quanto, muitas vezes, somos exigentes com as pessoas que amamos.
Queremos que o nosso filho seja de determinada maneira.
Que o marido seja mais carinhoso, mais presente ou mais compreensivo.
Que a esposa seja mais romântica, mais organizada ou mais disponível.
Queremos que o amigo esteja sempre por perto, que pense como nós, que nos compreenda sem precisarmos explicar.
Esperamos que o chefe reconheça nosso esforço, que seja justo, humano e que conduza as coisas exatamente como acreditamos que deveria.
E, sem perceber, podemos começar a nos relacionar não com a pessoa que está diante de nós, mas com a imagem que construímos dela.
Criamos uma espécie de personagem dentro da nossa mente:
“Meu filho deveria ser assim.”
“Meu marido deveria agir dessa forma.”
“Minha amiga deveria me entender.”
“Meu chefe deveria reconhecer meu valor.”
E quando o outro não corresponde àquilo que imaginamos, vem a frustração.
Mas talvez exista uma pergunta importante por trás de tudo isso:
Eu estou enxergando essa pessoa como ela realmente é ou estou enxergando aquilo que eu gostaria que ela fosse?
Porque existe uma diferença enorme entre amar uma pessoa real e amar aquilo que ela representa para nós.
Às vezes, não amamos apenas o outro.
Amamos a segurança que ele nos oferece.
A validação.
A companhia.
O cuidado.
O reconhecimento.
A sensação de sermos importantes.
E, quando aquilo que recebemos deixa de corresponder às nossas expectativas, podemos sentir que o amor também diminuiu.
É aí que vale olhar para dentro.
Não para nos culpar, mas para perceber nossas projeções.
Porque o outro não nasceu para cumprir o personagem que criamos para ele.
Seu filho não veio ao mundo para realizar a vida que você imaginou.
Seu marido não existe para preencher todas as suas necessidades emocionais.
Sua esposa não precisa corresponder à imagem da mulher que você idealizou.
Seu amigo não tem a obrigação de pensar exatamente como você.
E seu chefe não precisa ocupar o lugar de alguém que finalmente reconhece tudo aquilo que você gostaria de receber.
Isso não significa aceitar qualquer comportamento.
Amar não é abrir mão de limites.
Você pode amar alguém e ainda assim reconhecer que determinados comportamentos não são aceitáveis para você.
Pode respeitar quem o outro é e, ao mesmo tempo, escolher não permanecer em uma relação que não lhe faz bem.
Talvez o amadurecimento dos nossos relacionamentos aconteça justamente quando conseguimos separar duas coisas:
quem o outro é
e quem eu gostaria que ele fosse.
Porque quando eu paro de tentar transformar você naquilo que preciso, começo finalmente a ter a possibilidade de enxergar você.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de amar:
olhar para uma pessoa real, com suas qualidades, limitações, diferenças e imperfeições, e permitir que ela exista para além das minhas expectativas.
Mas existe uma pergunta ainda mais profunda:
E se eu descobrir que amo a imagem que construí, mas não consigo amar a pessoa real que está diante de mim?
Talvez essa resposta diga muito mais sobre a relação do que imaginamos.


